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Cena 8 e o teatro joinvilense sob as lentes de Marco Vasques

[Marco Vasques aceitou as provocações dos jornalistas Rodrigo Schwarz e Edson Burg. Parte desta entrevista foi publicada no caderno Plural, do jornal Notícias do Dia. Só poderia acabar nesta conversa, singular!]

O Cena 8 abriu com o espetáculo “A Vida Como Ela É”, do Teatro Sim … Por Que Não?!!!, de Florianópolis. A companhia, elogiada por sua qualidade, é uma ave rara no cenário teatral catarinense ou há muitos grupos com essa qualidade?

O teatro catarinense vive um momento muito rico. A companhia Teatro Sim… Por Que Não?!!! realmente é uma exceção, mais por desenvolver uma nova linguagem a cada novo espetáculo que por detenção exclusiva da qualidade. Temos hoje no estado algumas companhias com espetáculos que podem ganhar o mundo. O que impressiona na companhia a que você se refere é que eles exploram múltiplas técnicas e sempre obtêm resultados surpreendentes. Alguns dizem que estes experimentos resultam numa ausência de linguagem. Penso que teatro é risco, abismo. Eles se jogam nesse abismo e saem da chamada zona de conforto. São espetaculares, mas não são os únicos. A Traço Cia. de Teatro com o espetáculo “As Três Irmãs”; a Dionisos Teatro com “Entardecer” e “Frankestein: Medo de Quem?”; o Erro Grupo de Teatro; a Cia Carona; a Téspis Cia de Teatro são alguns exemplos de que nosso teatro está vivo. Se tivesse que escolher um nome da nova geração escolheria Samuel Kuhn, que acabou de dirigir o espetáculo “Passport”, do venezuelado Gustav Ott. Contudo, é preciso dizer que pululam em nossos palcos montagens dóceis, sem labor algum besterol de toda ordem. Esse não é um problema só nosso. De São Paulo a Paris a realidade é a mesma. O grupo Teatro Sim, Por Que Não?!!! é uma ave rara, mas não é a única.

Quais foram os destaques de grupos de Joinville no evento?

Sem nenhuma dúvida “Frankestein: Medo de Quem?”. O novo espetáculo da Dionisos Teatro é uma obra de arte completa. Quando falo em obra de arte completa fico pensando nos ensinamentos de Peter Brook e na concepção de espetáculo total construída por Eugenio Barba. “Passport” também é outro espetáculo que destaco. Faz-se necessário aqui uma observação. A Mostra de Teatro Joinvilense tem que ser repensada e fico feliz que o Luciano Cavichiolli esteja aberto ao debate e sugestões. Quero destacar aqui uma pessoa: o Hélio Muniz. É incrivelmente absurdo que um homem com a história que ele tem no teatro brasileiro não desperte o interesse da imprensa, dos historiadores e próprio setor. Brinco com o Hélio que ele é o homem da estética da não estética. O trabalho dele é para ser lido sob outra perspectiva. Não posso esquecer, é claro, da Sabrina Lermen que é uma atriz incrível e que precisa usar sua força criadora nos palcos, para o bem dela e do teatro.

Acompanhando o Cena 8 você percebe algum quesito que, de forma geral, os grupos se destacam ou se mostram deficientes?

Aqui é que a porca torce o rabo. Porque a programação do Cena mistura tudo. E o fato de não existir uma curadoria faz com que qualquer trabalho de grupo associado à AJOTE seja apresentado. Assim temos uma mostra muito frágil no todo e que se enfraquece justamente por essa mistura. Seguindo o raciocínio das categorizações, se faz urgente que tenhamos uma mostra nas escolas com espetáculos destinados a esse público com um debate feito por um profissional da arte-educação especializado em teatro, uma mostra paralela livre para que todos os grupos possam mostrar suas pesquisas, experimentos e erros. Porque teatro é, também, a arte do erro. E, finalmente, uma mostra oficial para os trabalhos selecionados por uma curadoria especializada. Assim se educa o público a olhar os vários níveis de se fazer teatro. Caso contrário se corre o risco de afastar o público ou de alimentar o seu olhar estético de forma equivocada. A mostra tem que se preocupar com a formação de público, tem que ser educativa e esta mistura, sinceramente, é um recurso demagogo de falsa democracia. Não adianta eu fazer um evento de poesia e colocar o Artemio Zanon, que é um poeta medíocre, ao lado do Rubens da Cunha. Porque corremos o risco de o público ler só o Artemio Zanon e sair com a impressão de que aquilo ali é poesia.

Qual é a importância do crítico para o desenvolvimento das companhias teatrais?

É preciso desmitificar a figura do crítico. Ele não é um deus. Ele é a consequência e não a causa das coisas. Um crítico significa um olhar. Muitos outros olhares são possíveis. Contudo, o crítico deve ser aquele que tem uma experiência prática e teórica do teatro. Um crítico é um educador, não um destruidor. Um reconstrutor da poética teatral. Como lembra bem o crítico Jefferson Del Rios – “o crítico é aquele que se dispõe a conversar sobre um trabalho” – e quem é inteligente  conversa. O que me irrita no teatro são esses diretores que veem no crítico um inimigo. Há cinco meses escrevi uma crítica sobre o espetáculo “Dois Perdidos Numa Noite Suja”, que se apresentou na mostra. Fiquei assustado com o que vi, pois o diretor não se dignou a pensar sobre os pontos observados, sobre os problemas apontados e o trabalho continua com os mesmos problemas, embora tenha potência para ser uma grande obra. Já a diretora do espetáculo “Amor Barato” ouviu e arranjou novas soluções. Porque o crítico não dá solução. O papel do crítico é colocar a dúvida. Era o Manuel Bandeira quem sempre dizia que “uma artista que não tem dúvidas é um artista morto”. E para completar essa questão dos olhares possíveis vale lembrar Oscar Wilde que sempre dizia: “uma obra de arte se legitima quando gera pensamentos contrários”.

As companhias catarinenses estão maduras já para receberem críticas ou muitas ainda levam para o lado pessoal?

Tenho experiências inenarráveis. Não consigo mais contar quantos atores, produtores e diretores não falam mais comigo. Se numerar as brigas, inclua aí as físicas, dá uma epopeia. O que me espanta mesmo é a falta de percepção de que o pior destino para uma obra de arte é o silêncio. Parece que há um desejo de silêncio absoluto. O silêncio é a morte. Mas continuarei fazendo minhas análises. Agora tenho um parceiro, o poeta Rubens da Cunha, que, irritado com a artificialidade geral do que se produz, se dispôs a fazer críticas comigo. Agora terão que brigar com dois.

Quanto ao público em Joinville, os espetáculos estão alcançando mais pessoas ou ainda quem vai ao teatro assistir a grupos locais, predominantemente, são pessoas ligadas à área?

O público do Cena está bem diversificado. Contudo, eu não aguento mais discursos derrotistas de artistas demagogos. Dia desses estava entre uns amigos que não se cansavam de reclamar que não há público para a arte. Bem, fui direto ao ponto: vocês que são artistas não são público das outras artes, então não sejam hipócritas. A verdade é que conheço bem a cena cultural de Joinville. Sou daqui embora muitos me tratem como estrangeiro, e o que estou sentido é o de sempre: falta dos fotógrafos, dos artistas visuais, dos artistas do cinema, dos professores e dos escritores. Enfim, se os artistas de outros setores fossem público das outras artes teríamos outra realidade. Não adianta ter o discurso da leitura se você não lê. Meu filho, de 2 anos, já repete os poemas que leio em voz alta pela casa. Ah! E não adianta imaginar que  a elite, falo de uma elite econômica (incluo as decadentes), porque o conceito de burguesia não faz mais sentido, vai aparecer nos espetáculos dos atores da cidade. A mente dessa elite burra e brega não ultrapassa as páginas da Veja.  Eles não sabem o nome de um ator da cidade, não conhecem seus escritores e não se envergonham disso!

“Wherter: Tempestade e Ímpeto” por Jean Knetschik

Laboratório Crítica Teatral
Espetáculo “Wherter: Tempestade e Ímpeto”
Por Jean Knetschik

Reunir dança e interpretação cênica no palco não é tarefa fácil. Se esta é a proposta da Essaé Cia Teatro-Dança com “Werther: Tempestade e Ímpeto”, ainda precisa ser melhor trabalhada. Os passos de tango quando as três personagens se unem ao centro do palco para dançarem juntas foram bem pensados, mas ainda pecam na realização. O jogo de cena, levando o público para três espaços diferentes foi um dos pontos altos do espetáculo, ao lado da interpretação de Cássio Correia, o qual demonstra uma grande segurança ao olhar o público nos olhos. É nesse momento que poucas pessoas têm o privilégio de ver a paixão de Werther nos olhos de Correia, mesmo este não exteriorizando isso de forma clara. Por outro lado, Letícia de Souza parece sequer ter pisado no palco. No início do espetáculo, dá a impressão de se tratar de uma libertina, pronta a se envolver com qualquer homem e não que está prestes a se casar com Albert e se apaixona por Werther.  Jackson Amorim ainda está aquém do que pede a personagem de Albert consegue surpreender na cena em que aparece com a arma para conversar com Werther, contudo ele não demonstra a raiva contida de um marido possivelmente traído pela esposa e por um amigo, ainda que a traição de Goethe seja de outra ordem que a colocada no palco. Não bastasse isso, o figurino não demonstra a imponência que um terno feito sob medida teria sobre um homem alto como ele ao dançar tango. Há cenas que remetem à dança em quase toda a peça, como na briga entre Albert e Werther, cuja correria de Letícia de um lado para o outro com passadas fortes no palco chama mais atenção do que o embateem si. Amarcação se mostra satisfatória. Os momentos finais são os melhores por mostrarem um bom diálogo de Goethe com outros autores, a exemplo de Shakespeare. Desde a cena das personagens escrevendo desesperadamente pelo chão até o suicídio do casal de amantes, é quando o público fica mais envolvido com a história.

Espetáculo “Marco” por Jean Knetschik

Laboratório Crítica Teatral
Espetáculo “Marco”
Por Jean Knetschik

A simbiose entre a palavra e a produção de imagens propostas por Marco são vistas desde o início do monólogo interpretado por Vinicius da Cunha. O trabalho de corpo do ator se destaca, bem como a marcação. Num curto espaço físico, Marco precisa viajar para as mais distantes partes do mundo e consegue. No início, o excesso de movimentos fica confuso para o público, os mais atentos ainda compreendem, depois de um certo tempo, a significância na repetição da “coreografia”. Como diria Antonin Artaud: “Respiração é de fato primordial”. Vinicius demonstra esse controle de respiração onde, mesmo após tanto esforço nos movimentos, consegue colocar toda a poesia sobre a busca pelas estrelas cadentes sem se mostrar ofegante. O show técnico de luzes, combinado ao clima criado pelo gelo seco, corrobora para a ideia dessa busca constante, a qual marca a vida do menino Marco.  A representação de estrelas cadentes pelo jogo de luzes é um dos pontos principais. A dinâmica cênica mostra um processo vivo e contínuo de reorganização dos acordos entre corpo e luz, produzindo uma quantidade incontrolável de trocas, de ritmo incessante nessa montagem do diretor Samuel Kühn. O corpo em movimento se reconfigura continuamente e as condições de luz acompanham essas transformações, bem como o figurino, o qual muda a cada nova viagem. Resta apenas solucionar o problema do casamento entre sonoplastia e voz do ator. Não são poucos os momentos onde o público deixa de entender o que Marco relata por conta da música que estava alta em demasia.

Fotos “A Parte Doente” por Jéssica Michels

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“A parte doente” por Jean Knetschik

Laboratório Crítica Teatral
Espetáculo “A parte doente”
Por Jean Knetschik

Ao adentrar o espetáculo, o público já se depara com três universos. Dispostos em cantos específicos do palco, um médico (James Beck), um professor (Fábio Hostert) e uma mulher (Sabrina Moura) demonstram ao longo da peça que cada um possui um tipo específico de câncer, uma parte doente, mas não fisicamente. O perfil psicológico do professor, homossexual, demonstra o medo de se apresentar perante os outros como homem. Na interpretação de Fábio Hostert, toda essa angústia que se perde apenas quando travestido de mulher, fica clara. Ver o ator cantar no palco, mesmo diante da aflição passada pela personagem, agrada.  Se o teatro precisa incomodar e mexer com as pessoas, a exemplo do que diz Antonie Artaud, a peça dirigida por Pépe Sedrez o faz como poucas. A invasão do espaço do público é visível, mesmo sem os atores saírem do palco. É notória essa “invasão” quando o professor aponta o espelho para a plateia e faz refletir a iluminação sobre os rostos de quem acompanha o espetáculo. Uma iluminação, diga-se, simples, porém, com um jogo de luzes que instala uma atmosfera dramática para cada situação e universo específicos.  Inegável ainda o domínio de cada ator sobre o próprio corpo. Marcações feitas são seguidas à risca, como quando as personagens bebem água (médico) e vinho (professor e mulher). A peça não deixa espaços para improvisações e sequer as pede. A única lamentação foi a falha da chuva que cairia sobre o universo da mulher, a qual o público terá de voltar em outra oportunidade para acompanhar.

Fotos “Fausto” por Carolinne Sagaz

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Espetáculo “Fausto” por Carolinne Sagaz

Laboratório Crítica Teatral
Espetáculo “Fausto”
Por Carolinne Sagaz

Fausto, perturbado e em crise existencial, anda sobre um tabuleiro de xadrez que representa sua vida. À medida que reflete sobre questões filosóficas, metafísicas e da própria personalidade, o tabuleiro vai sendo fragmentado pelo personagem. O monólogo, da Vai Cia de Teatro, foi criado a partir do texto “Fausto – Tragédia Subjectiva” de Fernando Pessoa. O espetáculo alterna momentos em que Fausto fala sozinho; em que fala no microfone para uma plateia (que não é a do espetáculo); em que ouve vozes. Com uma linguagem poética, o personagem mostra sentimentos paradoxais em relação à existência: tem horror de viver e horror de morrer, queria sentir e não sentir ao mesmo tempo. Perguntas como “Deus existe?”, “Temos alma?”, “Como surgiu o universo?” transpassam a mente de Fausto e são mostradas com ajuda da interação com audiovisual que ora mostra textos com questões diretas, ora mostra imagens abstratas que remetem ao universo. Os vídeos são complementados com a trilha sonora frenética e a luz fria, contrastando com silêncio e a iluminação quente dos outros momentos da peça.