Arquivo da categoria: Críticas

“Wherter: Tempestade e Ímpeto” por Jean Knetschik

Laboratório Crítica Teatral
Espetáculo “Wherter: Tempestade e Ímpeto”
Por Jean Knetschik

Reunir dança e interpretação cênica no palco não é tarefa fácil. Se esta é a proposta da Essaé Cia Teatro-Dança com “Werther: Tempestade e Ímpeto”, ainda precisa ser melhor trabalhada. Os passos de tango quando as três personagens se unem ao centro do palco para dançarem juntas foram bem pensados, mas ainda pecam na realização. O jogo de cena, levando o público para três espaços diferentes foi um dos pontos altos do espetáculo, ao lado da interpretação de Cássio Correia, o qual demonstra uma grande segurança ao olhar o público nos olhos. É nesse momento que poucas pessoas têm o privilégio de ver a paixão de Werther nos olhos de Correia, mesmo este não exteriorizando isso de forma clara. Por outro lado, Letícia de Souza parece sequer ter pisado no palco. No início do espetáculo, dá a impressão de se tratar de uma libertina, pronta a se envolver com qualquer homem e não que está prestes a se casar com Albert e se apaixona por Werther.  Jackson Amorim ainda está aquém do que pede a personagem de Albert consegue surpreender na cena em que aparece com a arma para conversar com Werther, contudo ele não demonstra a raiva contida de um marido possivelmente traído pela esposa e por um amigo, ainda que a traição de Goethe seja de outra ordem que a colocada no palco. Não bastasse isso, o figurino não demonstra a imponência que um terno feito sob medida teria sobre um homem alto como ele ao dançar tango. Há cenas que remetem à dança em quase toda a peça, como na briga entre Albert e Werther, cuja correria de Letícia de um lado para o outro com passadas fortes no palco chama mais atenção do que o embateem si. Amarcação se mostra satisfatória. Os momentos finais são os melhores por mostrarem um bom diálogo de Goethe com outros autores, a exemplo de Shakespeare. Desde a cena das personagens escrevendo desesperadamente pelo chão até o suicídio do casal de amantes, é quando o público fica mais envolvido com a história.

Espetáculo “Marco” por Jean Knetschik

Laboratório Crítica Teatral
Espetáculo “Marco”
Por Jean Knetschik

A simbiose entre a palavra e a produção de imagens propostas por Marco são vistas desde o início do monólogo interpretado por Vinicius da Cunha. O trabalho de corpo do ator se destaca, bem como a marcação. Num curto espaço físico, Marco precisa viajar para as mais distantes partes do mundo e consegue. No início, o excesso de movimentos fica confuso para o público, os mais atentos ainda compreendem, depois de um certo tempo, a significância na repetição da “coreografia”. Como diria Antonin Artaud: “Respiração é de fato primordial”. Vinicius demonstra esse controle de respiração onde, mesmo após tanto esforço nos movimentos, consegue colocar toda a poesia sobre a busca pelas estrelas cadentes sem se mostrar ofegante. O show técnico de luzes, combinado ao clima criado pelo gelo seco, corrobora para a ideia dessa busca constante, a qual marca a vida do menino Marco.  A representação de estrelas cadentes pelo jogo de luzes é um dos pontos principais. A dinâmica cênica mostra um processo vivo e contínuo de reorganização dos acordos entre corpo e luz, produzindo uma quantidade incontrolável de trocas, de ritmo incessante nessa montagem do diretor Samuel Kühn. O corpo em movimento se reconfigura continuamente e as condições de luz acompanham essas transformações, bem como o figurino, o qual muda a cada nova viagem. Resta apenas solucionar o problema do casamento entre sonoplastia e voz do ator. Não são poucos os momentos onde o público deixa de entender o que Marco relata por conta da música que estava alta em demasia.

“A parte doente” por Jean Knetschik

Laboratório Crítica Teatral
Espetáculo “A parte doente”
Por Jean Knetschik

Ao adentrar o espetáculo, o público já se depara com três universos. Dispostos em cantos específicos do palco, um médico (James Beck), um professor (Fábio Hostert) e uma mulher (Sabrina Moura) demonstram ao longo da peça que cada um possui um tipo específico de câncer, uma parte doente, mas não fisicamente. O perfil psicológico do professor, homossexual, demonstra o medo de se apresentar perante os outros como homem. Na interpretação de Fábio Hostert, toda essa angústia que se perde apenas quando travestido de mulher, fica clara. Ver o ator cantar no palco, mesmo diante da aflição passada pela personagem, agrada.  Se o teatro precisa incomodar e mexer com as pessoas, a exemplo do que diz Antonie Artaud, a peça dirigida por Pépe Sedrez o faz como poucas. A invasão do espaço do público é visível, mesmo sem os atores saírem do palco. É notória essa “invasão” quando o professor aponta o espelho para a plateia e faz refletir a iluminação sobre os rostos de quem acompanha o espetáculo. Uma iluminação, diga-se, simples, porém, com um jogo de luzes que instala uma atmosfera dramática para cada situação e universo específicos.  Inegável ainda o domínio de cada ator sobre o próprio corpo. Marcações feitas são seguidas à risca, como quando as personagens bebem água (médico) e vinho (professor e mulher). A peça não deixa espaços para improvisações e sequer as pede. A única lamentação foi a falha da chuva que cairia sobre o universo da mulher, a qual o público terá de voltar em outra oportunidade para acompanhar.

Espetáculo “Fausto” por Carolinne Sagaz

Laboratório Crítica Teatral
Espetáculo “Fausto”
Por Carolinne Sagaz

Fausto, perturbado e em crise existencial, anda sobre um tabuleiro de xadrez que representa sua vida. À medida que reflete sobre questões filosóficas, metafísicas e da própria personalidade, o tabuleiro vai sendo fragmentado pelo personagem. O monólogo, da Vai Cia de Teatro, foi criado a partir do texto “Fausto – Tragédia Subjectiva” de Fernando Pessoa. O espetáculo alterna momentos em que Fausto fala sozinho; em que fala no microfone para uma plateia (que não é a do espetáculo); em que ouve vozes. Com uma linguagem poética, o personagem mostra sentimentos paradoxais em relação à existência: tem horror de viver e horror de morrer, queria sentir e não sentir ao mesmo tempo. Perguntas como “Deus existe?”, “Temos alma?”, “Como surgiu o universo?” transpassam a mente de Fausto e são mostradas com ajuda da interação com audiovisual que ora mostra textos com questões diretas, ora mostra imagens abstratas que remetem ao universo. Os vídeos são complementados com a trilha sonora frenética e a luz fria, contrastando com silêncio e a iluminação quente dos outros momentos da peça.

“O Vendedor de Cenas” por Jéssica Michels

Laboratório Crítica Teatral
Espetáculo “O Vendedor de Cenas”
Por Jéssica Michels

“Vendem-se cenas, vendem-se cenas”.  A oferta era anunciada enfaticamente na abertura do espetáculo “O vendedor de Cenas”, da Cia Studio em Cena.  No palco, uma arara de roupas e calçados. Atrás, escondidos, os atores.  Fernanda Moreira, que interpreta o vendedor ambulante, reconhece que o produto é inusitado e oferece então amostras grátis para a plateia. Distribuindo catálogos, a plateia pode escolher entre as 20 opções de cenas nos sabores comédia, drama, romance e infantil. “Dizem que cada um vende o que pode; e a única coisa que eu tenho é uma equipe de atores”, explica o vendedor. Os dez atores são novos, mas já surpreendem na interpretação. Por vez, um mesmo ator encanta numa cena e deixa a desejar noutra. O espetáculo se completa neste jogo cênico entre os atores, o público interligados pelo vendedor. A troca de figurino é realizada em cena e muitas vezes, deixa a plateia apreensiva e ansiosa, pois o espetáculo perde o ritmo. A dinâmica da peça está bem construída e a força vital está no vendedor, porém o jogo se desfaz durante a troca de figurino. Um espetáculo interessante, diferente e divertido. Devemos considerar que a proposta é simples e o público comprou a ideia, mas não podemos deixar de observar os inúmeros erros de concordância cometidos por alguns atores, o problema de dicção de outros e certo desconforto demonstrado por alguns atores na cena.

Espetáculo “Uma festa para Eulália” por Bruno Arins

Laboratório Crítica Teatral
Espetáculo “Uma festa para Eulália”
Por Bruno Arins

Curiosas situações típicas da terceira idade feminina são apropriadas por Jura Arruda para criar uma história que a princípio parece ser tola, mas que reflete a realidade dos idosos de nossos dias. Numa atmosfera de inocência e simpatia, “Uma festa para Eulália” narra a preocupação de uma senhora com a chegada de sua aposentadoria. O que para suas amigas é motivo de comemoração, para Eulália se compara à chegada da morte. Esta mórbida analogia é responsável pelo desenrolar da história e, sob este contexto, as expectativas de vida das diversas personagens vão sendo apresentadas. Um clima feminista é instaurado com a altivez das mulheres em se opor à submissão masculina. O Alzheimer e a autoestima de deficientes físicos são temas tratados à base da comédia. Mesmo com dificuldades, como o roteiro, que leva certo tempo para ser absorvido e os constantes momentos em que as atenções recaem sobre o drama da cadeirante, a peça cumpre seu papel visivelmente social. Do ponto de vista estritamente crítico,  desafia a construção técnica e estética ao que se considera um espetáculo teatral digno. Porém, não há como resistir a doces senhoras que emprestam seu charme e sua paixão pela vida a personagens cativantes e engraçadas. Os elementos mínimos para uma trama envolvente estão presentes, e atuam como que numa novela. É interessante notar que as próprias atrizes claramente são parte daquilo que representam com suas personagens. São ávidas por viver em plenitude; estão ali porque buscam aventurar-se; querem ocupar-se a fim de distanciarem-se do ócio. Talvez seja por estes motivos que a entrega às personagens é tão sincera. A festa propriamente dita surge apenas no final. Mas para as atrizes da Cia Novo Tempo – bem como para a plateia, a festa já começou lá no início. Uma festa não só para Eulália, mas para toda a família.

“Uma Festa para Eulália” por Carolinne Sagaz

Laboratório Crítica Literária
Espetáculo “Uma Festa para Eulália”
Por Carolinne Sagaz

É o último dia de trabalho de Eulália; ela vai se aposentar. Enquanto questiona o sentido que a vida terá a partir de então e lamenta a “morte” da aposentadoria, seis amigas organizam uma festa para animá-la. “Uma Festa para Eulália”, do grupo joinvilense de Teatro Novo Tempo, é uma peça bem humorada, cheia de piadas clichês que se tornam engraçadas graças a boa construção das personagens e as interpretações singulares de todo o grupo. O Grupo Novo Tempo surgiu a partir de uma oficina ministrada, em 2003, para os aposentados pelo Instituto de Previdência dos Servidores de Joinville (Ipreville). O tema aposentadoria, e a crise existencial que costuma vir junto, é bem próximo da realidade das atrizes e foi escrito especialmente para o grupo. Em certos momentos, o espectador tem a sensação de que as mulheres no palco estão interpretando elas mesmas e de que alguns diálogos foram copiados metodicamente de cenas reais. A peça escorrega em alguns detalhes, como a iluminação alaranjada e quente numa cena que se passa sob a luz do luar, mas no geral agradou ao público e arrancou gargalhadas. Um bom exemplo de como a arte pode reintegrar as pessoas à vida e ter um caráter educativo.