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“A parte doente” por Jean Knetschik

Laboratório Crítica Teatral
Espetáculo “A parte doente”
Por Jean Knetschik

Ao adentrar o espetáculo, o público já se depara com três universos. Dispostos em cantos específicos do palco, um médico (James Beck), um professor (Fábio Hostert) e uma mulher (Sabrina Moura) demonstram ao longo da peça que cada um possui um tipo específico de câncer, uma parte doente, mas não fisicamente. O perfil psicológico do professor, homossexual, demonstra o medo de se apresentar perante os outros como homem. Na interpretação de Fábio Hostert, toda essa angústia que se perde apenas quando travestido de mulher, fica clara. Ver o ator cantar no palco, mesmo diante da aflição passada pela personagem, agrada.  Se o teatro precisa incomodar e mexer com as pessoas, a exemplo do que diz Antonie Artaud, a peça dirigida por Pépe Sedrez o faz como poucas. A invasão do espaço do público é visível, mesmo sem os atores saírem do palco. É notória essa “invasão” quando o professor aponta o espelho para a plateia e faz refletir a iluminação sobre os rostos de quem acompanha o espetáculo. Uma iluminação, diga-se, simples, porém, com um jogo de luzes que instala uma atmosfera dramática para cada situação e universo específicos.  Inegável ainda o domínio de cada ator sobre o próprio corpo. Marcações feitas são seguidas à risca, como quando as personagens bebem água (médico) e vinho (professor e mulher). A peça não deixa espaços para improvisações e sequer as pede. A única lamentação foi a falha da chuva que cairia sobre o universo da mulher, a qual o público terá de voltar em outra oportunidade para acompanhar.

Espetáculo “Dois Perdidos Numa Noite Suja” por Patrícia Cristiane Schmauch

Laboratório Crítica Teatral
Espetáculo “Dois Perdidos Numa Noite Suja”
Por Patrícia Cristiane Schmauch

Mundo dos quartos escuros, preconceito, desamparo e falta de oportunidade. Esse é o retrato da peça “Dois Perdidos Numa Noite Suja”.  A história de dois sujeitos distintos que têm suas vidas cruzadas pelo acaso destaca o sentimento de revolta, inconformismo e impotência que os personagens sentem na luta por seus tão diferentes objetivos.  Não há como não sentir pena de Tonho ou rir das humilhações de Paco. A sintonia entre os atores possibilita a aproximação da situação ficcional à realidade do público. Um dos personagens, Tonho (Cristóvão Petry), veio do interior para a cidade grande em busca de um trabalho digno, enquanto Paco (Samuel Kühn) é um vilão incomum: apesar de metido a malandro, em alguns momentos há a sensação que o que ele quer, no fundo, é ajudar Tonho a lutar pelos seus sonhos. Grande parte da boa fluência da peça se deve à grande qualidade técnica do ator Samuel Kühn. Ele incorpora Paco, começa a viver como Paco, e chama a plateia a entrar na história, sentir, sorrir, exigir uma postura, querer uma reação. Cristóvão Petry faz o papel do acanhado Tonho. Parece-me que falta um pouco de vida ao personagem, que já é retraído. A questão não é o texto ou o tom de voz, e sim a interpretação, convencer ao público de que existem muitos Tonhos Brasil afora. Os dois personagens são iguais até o momento em que surge o par de sapatos. Tonho insiste que precisa de calçados novos para conseguir um emprego. A sutil relação de poder surge quando Paco não empresta seu novo par de sapatos a Tonho de maneira alguma. O objeto é muito bem trabalhado na peça e também faz uma apologia à realidade: o que é necessário para se correr atrás de um sonho? O destaque da peça é a linguagem popular utilizada, com gírias e palavrões que aproximam os personagens das pessoas que se encontram à margem da sociedade. Assim como as cenas de brigas e pontapés, que justifica a classificação etária do espetáculo. O figurino, iluminação e cenário estavam bem adaptados, e sem dúvida, colocaram o espectador dentro de um velho e sujo quarto de pensão por alguns instantes.